No festival sem credencial: diário de um dia no SWU 2011

Publicado em 15 de novembro de 2011 por Mirela Leme
SWU 2011 por Mirela Leme
SWU 2011 por Mirela Leme

É dia 13 de novembro e parto para Paulínia no meu dia escolhido como o preferido pelas atrações que viriam no segundo dia de SWU 2011.

Estava sem credencial e iria usar dessa posição para analisar tudo aquilo como todos os milhares que ali estavam, como público mesmo. E aqui está, um apanhado de tudo que vi e deixei de ver ali.

Shows:

• Tedeschi Trucks Band
E começamos com uma incrível surpresa. Se nos vídeos do YouTube Tedeschi Trucks Band decepcionava, a teoria caiu como a chuva, porque foi a melhor maneira de se sentir efetivamente em um festival. Com os olhos fechados, em algumas músicas, podíamos imaginar que Susan Tedeschi tinha encarnado uma Janis Joplin e que estávamos no Woodstock. Mas não foi apenas isso, a loira de vestido e meia pretos e sua banda, liderada ainda pelo seu Derek Trucks, conquistaram o público – e já estamos com vontade de vê-los de novo. Acompanhada por outras vozes perfeitas para seu blues e soul, Susan também arrancou gritos eufóricos e aplausos inaudíveis com seus solos de guitarra. E Tedeschi Trucks Band está, portanto, entre as boas recordações do SWU, com direito a palavras em português.

• Ultraje a Rigor
Quando achava que tinha perdido o show da única banda brasileira que devíamos ver naquela tarde/noite (porque a escolha entre três palcos é tão difícil), eis que Ultraje a Rigor volta ao palco que era seu de direito para um show muito tempo depois do previsto, por conta dos prejuízos de horário (totalmente compreensíveis) que um festival deve ter. E Roger Moreira fizeram um show memorável. Com milhares de pessoas cantando todas as letras, este era um show que não queria acabar. Com direitos a brigas entre a produção da banda e de Peter Gabriel, palco e público pegaram fogo e virou algo revoltadamente divertido, com direito ao “big big asshole” de Roger. Com um “estamos com tempo mesmo” e uma camiseta com a estampa de Woodstock, ele fez todos cantarem e pularem juntos com sucessos de sempre como Ciúme, Sexo, Pelado, Nada a Declarar e um pedaço de Marilu.

• Playing for Change

E estávamos ali, arrepiados pela passagem do Playing for Change em um espaço mais alto do que seu público e imaginando que pudesse ser uma praça. O show estava ótimo, mas só foi completo quando por este espaço, entrou Grandpa Elliot, com seu macacão, camisa vermelha e barbas brancas, tão característico de Playing for Change. E o final de tarde e início de noite foi perfeito. Já bastava a satisfação de vê-los ali e eles pediram para que fizéssemos coro com uma música famosa aí com a versão deles, em português. E então Stand By Me vira um o hino do SWU e se transforma em um “Fica comigo, fica comigo, fica comigo”, que eu poderia estar cantando até agora. E estou, na cabeça.

• Modest Mouse
Em 12 de setembro, twittei: #ModestMousenoSWU, babe! A felicidade tem motivo!
No segundo ano de festival, eu tinha dinheiro para ir até ele e sim, eu veria uma de minhas bandas preferidas. Não são tantas assim, mas de tantos shows que já desejei ver, Modest Mouse estava no topo. E convenci meus amigos a irem neste dia pra me acompanhar. E foi exclusivamente por esta banda que comprei o ingresso. Não que as outras apresentações não tenham valido a pena.
O que fazer quando você ouve que sua banda preferida está ali, mas os instrumentos não? Show cancelado e uma promessa de uma nova data para o Brasil na agenda de shows. O que espero que seja de graça para os que ali estavam pela banda. Mas é claro que não será, até porque eles nem devem saber que aqui no Brasil se paga caro pra realizar o sonho de ouvir e ver seus ídolos.

• Duran Duran
Depois da decepção, seria difícil recobrar a animação para um show que nem estava na lista dos que seriam vistos, mas Duran Duran estava se esforçando para me agradar. Em certos momentos, imaginei que minha mãe poderia estar se divertindo mais do que eu, mas foi quase uma lembrança que trazemos de criança ver Simon Le Bon e todo seu brilho anos 80 cantando Ordinary World, mesma música que “ensaiávamos”, eu e meus amigos, no caminho até Paulínia. E Le Bon fez algo que faz com que qualquer banda ganhe a simpatia de um festival. Ele desceu do grande palco e veio falar em português e cantar com o público de todas as idades que ali estava.

• Peter Gabriel and New Blood Orchestra
Depois de um pedido formal de desculpas a Roger Moreira e à equipe de Ultraje a Rigor, posso dizer com absoluta certeza: Peter Gabriel foi “o cara” do SWU 2011 por diversos motivos. A primeira porque ele vai ter minha admiração e meu respeito pelo resto da vida por reunir algumas folhas de papel com frases, para todo o seu show, em português. Sim, Peter Gabriel esteve no Brasil e se esforçou, muito, para falar em português. E ele poderia nem ter feito show algum, e mesmo assim eu diria que ele foi “o cara”, bem melhor que um Neil Young que se “apresentou” apenas no fórum de sustentabilidade, no sábado. Até porque, além disso, juntou todos em um “volta pra casa” em um dialeto do Congo, parte de um projeto de sua filha, que levará nossas vozes em coro para as rádios do Congo, clamando para crianças que fazem parte da guerrilha saibam que todos queremos que elas voltem para seus lares.
Acontece que ele fez este show. E foi emocionante. Apesar de alguns fãs histéricos estarem ali, gritando, o que não combinava com o show, foi um espetáculo. Um espetáculo de música, com uma orquestra que arrancou lágrimas de pessoas ao meu lado e que Gabriel fez questão de mencionar que era formada por britânicos, e brasileiros! Um show que não se esperava ver no SWU, e sim no Theatro Municipal de Paulínia, ali do lado, mas que foi histórico!

• Lynyrd Skynyrd
Para fechar a noite, chegou o momento que todas as camisetas com as letras roqueiras com a escrita “Lynyrd Skynyrd” que vi durante o dia encontraram seu esperado show. Sim, de todas as roupas e bandas da tarde/noite, eram eles os únicos que estavam camisetas com nome de alguma atração que via, e como as vi. E apesar de um dia todo em pé, pulando ou dançando nos shows anteriores, valeu a pena esperar e ver o encerramento do meu dia de SWU, e pular tanto com Sweet Home Alabama, com chuva. Foi como se Forrest Gump estivesse entre nós.

• Sustentabilidade/estrutura/serviços
Foi engraçado chegar ao festival que prega a sustentabilidade e ler, em uma das placas de entrada “14 à 17 anos”, com crase, assim mesmo. Falha absurda, devo dizer. Com tantos músicos se esforçando pra falar em português, foi um pecado bem feio.

Depois disso, comecei a procurar pela sustentabilidade que achei que estava espalhada por aquela lugar enorme. Passei por onde todos passaram e não vi nenhum conjunto de lixeiras coloridas. Sabe aquelas que separamos, na nossa consciência diária, em quatro cores, amarela, azul, vermelha e verde? Elas não estavam lá. O que vi foram algumas poucas lixeiras transbordando em pontos de venda de bebidas e muita, muita sujeira em frente aos palcos. Se pudesse mudar isso, colocaria todas essas lixeiras – mais a marrom de orgânico – em frente e na volta dos palcos.

Fiquei sabendo, só hoje, que as belas lixeiras estavam nos lugares afastados onde ninguém quase foi e próximas àquela tenda desnecessária com “putz, putz”, que gritava no intervalo das músicas do palco New Stage e que faria com que Janis Joplin e Jimi Hendrix desgostassem dos festivais.

Sobre as bebidas, além dos pontos fixos de venda de cerveja, os vendedores ambulantes que passavam em frente aos palcos com aqueles isopores cobravam R$ 8 pela cerveja, na cara de pau, com um cartaz grudado na caixa dizendo que o valor padrão era R$ 7. Ganharam muito dinheiro em cima dos bêbados que não percebiam – e em cima de vocês, organização.

Aliás, o atendimento daqueles que eram voluntários era bem melhor do que os que receberam salários para trabalhar – com exceção do Chico, velho gente boa que vendia bebidas em frente aos banheiros.

E é aí que finalizamos a nossa análise, nos banheiros. Como informado anteriormente, não pegamos fila alguma para chegar até os banheiros e acredito também que é porque as pessoas que conseguiam evitavam de ir até eles. No segundo dia, o cheiro de todos os banheiros químicos era insuportável e a ansiedade pelos shows podia ser transformada em ânsia, tamanho o fedor. Para o próximo ano, a organização deveria deixar de economizar em banheiros químicos nada higiênicos e contratar aqueles banheiros que vêm em containeres, com vasos normais, descargas e pias para todos lavarem as mãos. Acho prático. Não consigo me lembrar como eram os banheiros do Paulínia Fest, que aconteceu no mesmo local (mas bem menor) em julho. Só me lembro deles serem bem mais limpos.

Outros desejos para o próximo ano: estacionamento mais barato (inclusive para aqueles que dão carona) e mais perto. E claro, o SWU poderia acontecer em agosto, quando não chove.

Até o ano que vem, festival!

Autor

Mirela Leme

Mirela Leme, 25 anos, jornalista, apaixonada por cultura e todas as suas vertentes. É tagarela e sim, se apaixona fácil, pelas coisas e pelas pessoas. O apelido dela é Pipi, e ela adora que a chamem assim. Tem convicção que todo mundo pode influenciar as pessoas a serem mais cultas.

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