Amor é bicho instruído
Olha: o amor pulou o muro
o amor subiu na árvore
em tempo de se estrepar.
Pronto, o amor se estrepou.
Daqui estou vendo o sangue
que escorre do corpo andrógino.
Essa ferida, meu bem
às vezes não sara nunca
às vezes sara amanhã.
O post de hoje é um pouquinho diferente dos outros. Diferente porque embora seja Carlos Drummond de Andrade, não é sobre um livro específico. É uma antologia de poemas que eu adoro.
Memória
Amar o perdido
deixa confundido
este coração.
Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.
As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão
Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.
Com poemas saudosos de sua cidade natal Itabira, políticos, eróticos, com humor, com morte, com pedras. De uma linguagem cativante e rimas ricas de inteligência, Drummond trouxe a poesia ao povo. Trouxe poema e poesia.
Poema de sete faces
Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.
As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.
O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.
O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.
Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus,
se sabias que eu era fraco.
Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.
Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.
Nascido em 1902, Carlos Drummond de Andrade morre de uma paixão fulminante aos 82 anos. Depois de ver seus pais morrerem, sua esposa, seu filho recém-nascido e sua filha querida, Drummond pede a um cardiologista que apenas lhe receite um infarto fulminante. Doze dias depois morre numa clínica de mãos dadas com Lygia, sua amante há 35 anos, e quem disse a um jornalista que a “paixão foi fulminante”.
O enterrado vivo
Sempre no passado aquele orgasmo,
Sempre no presente aquele duplo,
Sempre no futuro aquele pânico.
Sempre no meu peito aquela garra.
Sempre no meu tédio aquele aceno.
Sempre no meu sono aquela guerra.
Sempre no meu trato o amplo distrato.
Sempre na minha firma a antiga fúria.
Sempre no mesmo engano outro retrato.
Sempre nos meus pulos o limite.
Sempre nos meus lábios a estampilha.
Sempre no meu não aquele trauma.
Sempre no meu amor a noite rompe.
Sempre dentro de mim meu inimigo.
E sempre no meu sempre a mesma ausência.
Poemas recitados pelo próprio Drummond: Clique Aqui
Abasteça-se de poesia o/
Como adoro poesias é claro que teria que comententar aqui primeiro.E se tratando de Drumond e falando de amor,mais incrível ainda.
“As vezes acho que o amor não acha e quem procura fica na loucura de amar sem achar.”(Viajante do Tempo),não é drumond,mas é do pseudonimo do Peluca.
Abraço e parabéns…
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