QCLV Literaria – O Último voo do Flamingo
Nada mais prazeroso do que ler numa tarde nublada um livro como O Último voo do Flamingo, de Mia Couto – publicado em 2000.
Mia Couto é um consagrado escritor contemporâneo moçambicano. O escritor traz à cena as culturas tão singulares em África e retrata os problemas dos anos posteriores à Guerra Civil de Moçambique. Guerra que matou 16 milhões de pessoas e deixou pelo menos um milhão de mutilados (número que meu professor de Literaturas Africanas enfatizou durante todo o semestre).
Apesar de ter como contexto histórico uma das mais cruéis realidades de Moçambique, o livro é bem-humorado e cheio de histórias fantásticas perpassadas pela crença de um povo. O livro é suspense: logo no começo já nos deparamos com um mistério: um pênis avulso. Assim mesmo! Um membro fálico sem o devido dono. Mais um boina-azul (soldado da ONU enviado a Moçambique para a “manutenção da paz”) havia explodido e a única coisa encontrada era o membro avultado.
A autoridade local então contrata o italiano Massimo Risi para investigar as explosões e o tradutor de línguas e costumes para acompanhá-lo. Sendo o tradutor também o narrador, vamos investigar junto com dupla se os boinas-azuis morrem-se ou se foram mortos. E com eles conheceremos personagens singulares como Temporina, que, tendo sido amaldiçoada, tem corpo de menina e rosto de velha; Ana Deusqueira, prostituta local que, sendo conhecedora dos atributos masculinos da região, é chamada para tentar identificar “a parte pelo todo”, ou seja, é chamada para tentar dar nome ao dono do membro; o pai do narrador-tradutor Sulplício e muitos outros.
Usando de metáforas, ironia, humor, e muita cultura da África (que se converte em realismo animista), Mia Couto nos traz uma obra intrigante, mas ao mesmo tempo doce, bem-humorada e política. Figuras de linguagem, neologismos, uma mulher que morre e vira louva-a-deus, um homem que antes de dormir pendura seus ossos na árvore, o estrangeiro em África, o africano em estrangeiro e, por fim, o último voo do flamingo.
O último voo do flamingo pode ser muitas coisas. Pode ser o fim do mundo. Pode ser o começo de um novo.
Reflexão final. Haiti. Onde há a presença dos boinas-azuis também (reparem!). Não estaríamos todos caminhando para o último voo do flamingo?
Abasteça-se de literatura às sextas!
