24 fev/2010

“No ano de meus noventa anos quis me dar de presente uma noite de amor louco com uma adolescente virgem. Lembrei de Rosa Cabarcas, a dona de uma casa clandestina que costumava avisar aos seus bons clientes quando tinha alguma novidade disponível.”

Gabriel García Márquez é um escritor colombiano renomado e ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 1982 com a obra-prima “Cem anos de Solidão”. Em 2004, Márquez reafirma sua grandeza e bom humor com o livro Memória de minhas putas tristes.

Memória é a história de um cronista e crítico musical que no aniversário de noventa anos resolve presentear-se com uma noite de amor com uma adolescente virgem. Embora Rosa Cabarcas, dona do prostíbulo local e sua amiga de longa data, lhe arrume a jovem, quando o narrador entra no quarto e vê a jovem de quatorze anos a dormir, não tem coragem de acordá-la. Assim, vamos acompanhar a narrativa de um homem que a vida inteira só teve mulheres por dinheiro:

“nunca me deitei com mulher alguma sem pagar, e as poucas que não eram do ofício convenci pela razão ou pela força que recebessem o dinheiro nem que fosse para jogar no lixo. (…) Até os cinquenta anos eram quinhentas e catorze mulheres com as quais eu havia estado pelo menos uma vez”.

mas acaba por descobrir o amor no que ele julgava ser o fim da vida.

Dessa forma, vamos refletir com o narrador todas as suas angústias em relação ao ofício de cronista de jornal, vamos fazer um panorama com ele de toda a sua vida e refletir sobre a idade e suas singularidades, repensar sobre o valor do tempo e de quanto valor atribuíamos a ele, acompanhar a vida amorosa-promíscua de alguém que tem de aprender a amar aos noventa anos e, assim, acompanhar todos os pensamentos e inquietações de um narrador muito peculiar.

Além disso, o nosso “senhor’’ narra com muito bom humor a convivência com o primeiro gato de sua vida, o que gera reflexões pra lá de inteligentes e engraçadas, que me deixaram apaixonada pelo livro: “e não consegui evitar o calafrio de estar sozinho na casa com um ser vivo que não era humano.”

Assim, convido meus amigos-leitores-virtuais a deleitarem-se com uma obra repleta de bom humor, reflexões sobre idade, amor, sexo, amizade, trabalho, gatos (!)… Com uma linguagem que beira o primor mas sem deixar de ser simples, Gabriel García Márquez nos convida a essa viagem e prova mais uma vez o seu poder de sedução.

Citação final e, creio eu, a que mais instiga a ler o livro:

“A única relação estranha foi a que mantive durante anos com a fiel Damiana. Era quase uma menina, mais para forte e xucra, de palavras breves e terminantes, que se movia descalça para não me estorvar enquanto eu escrevia. Recordo que eu estava lendo La lozana andaluza na rede do corredor, e a vi por acaso inclinada no tanque com uma saia tão curta que deixava a descoberto suas coxas suculentas. Presa de uma febre irresistível levantei-a por trás, baixei suas prendas até os joelhos e avancei pelos fundos. Ai, senhor, disse ela, com um queixume lúgubre, isso não foi feito para entrar, mas para sair. Um tremor profundo percorreu seu corpo, mas se manteve firme. Humilhado por tê-la humilhado quis pagar a ela o dobro do que custavam as mais caras daquele tempo, mas não aceitou nem um tostão, e tive que aumentar seu salário com o cálculo de uma montada por mês, sempre enquanto lavava roupa e sempre pela retaguarda.”

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Renata Carreon
Terminando o curso de Letras pela Universidade Federal de São Carlos - UFSCar. Analista do Discurso. Livros. Muito de espanhol. Um pouco de francês. Sinestésica. Hiperbólica.
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Márcio Zagallo
24 de fevereiro de 2010 as 13:13

Perfeito! \o/

Parras
24 de fevereiro de 2010 as 14:33

Ok… vc sabe escrever!!!

25 de fevereiro de 2010 as 11:55

É muito bom ler o que você escreve Renata, sempre!

E sabe o que eu gosto? Quando você escreve sobre livros que já li, a exemplo deste e de Ensaio Sobre a Cegueira, que já escreveu também. Porque assim, você reaviva as sensações que senti e as cenas que compunha enquanto lia o livros.

Beijos!

Javier
20 de março de 2010 as 22:54

Oi Renata gustei de seu admiração pelo literatura, mas tenho uma correção para fazer na publicação de vc, o Gabriel Garcia Marquez conhecido como GABO naceu na Colombia na cidade de Aracataca e não em Cuba como vc diz no artigo. Obrigado.

Joe!
4 de abril de 2010 as 16:52

Este livro realmente é bom!! Quando foi nosso primeiro amor? A maioria das pessoas se apaixona pela primeira vez aos quatorze anos, nosso protagonista se apaixona pela primeira vez por uma garota de 14 anos, mas isto no auge dos seus noventa. Para os falso moralistas de plantão, ele pode parecer um “velho tarado”, mas para quem acompanha a excepcional cronica do mestre Gabriel Garcia Marques, ve que se trata de amor, que de forma comica, muitas vezes, fala do drama do jornalista que conheceu o amor aos 90 anos. Uma sugestão para quem acredita em amores atemporais é o “Amor nos tempos do colera”, que inclusive foi transformado em película com a ótima atuação de Javier Barden. Então é isso, ou melhor, Então tá Então.


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Trackback: Pepe em 24 de fevereiro de 2010

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