QCLV LITERARIA – Madame Bovary

“Emma não dormia, fingia estar adormecida e, enquanto ele cochilava ao seu lado, ela despertava para outros sonhos”
Diferindo um pouco dos meus últimos posts – que se debruçaram sobre livros de autores contemporâneos – neste post e em mais dois, farei jus aos grandes clássicos. Para isso, não me fiz de rogada. Apelei para três livros apaixonantes e de autores que marcaram época, seja pela audácia, seja pela singularidade: Madame Bovary de Gustave Flaubert, Primo Basílio de Eça de Queirós e Dom Casmurro de Machado de Assis. Publicados no mesmo século e tendo por temática o adultério – ou a suspeita dele, os três livros prometem fazer com que qualquer leitor pense em (re)ler os grandes clássicos.
Gustave Flaubert é um escritor francês que fez história. Madame Bovary foi considerado o livro fundador do realismo na França e, com isso, o iniciador do fim do romance romântico. A obra leva Flaubert no mesmo ano de sua publicação, em 1857, ao banco dos réus acusado de imoralidade.
O enredo é simples: Emma, uma linda e inteligente mulher, casa-se com um médico. Morando no interior da França e vivendo um casamento que nem de longe parecia com aqueles dos livros românticos que tanto lia, Emma passa a viver uma vida de tédio e angústia. É assim que se envolve com outros homens, o que lhe conferiu mais lágrimas e desilusões. O fascinante do livro é exatamente a construção desse enredo. Com construções psicológicas interessantes, Flaubert traz o leitor para a cama de Emma e seus amantes e, com isso, todas as suas dores, mágoas e anseios.
E a ruptura do livro é esta: tenta acabar com a imagem daquele amor romântico que dura para sempre e, nas palavras de Flaubert, fazer o retrato fiel da sociedade burguesa da época. Tanta audácia levou o autor a responder às acusações de “ofensa à moral pública e à religião” por sua “glorificação do adultério”. Na edição da Nova Alexandria é possível ler os autos do processo, do qual transcrevo um pequeno trecho da acusação:
“Quem lê o romance do Sr. Flaubert? Serão homens que se ocupam de economia política ou social? Não! As páginas levianas de Madame Bovary caem em mãos mais levianas, nas mãos das moças, algumas vezes de mulheres casadas.”
Mas com a brilhante defesa do advogado Sénard, o autor é absolvido. E fica consagrada a frase proferida por Flaubert nos tribunais “Emma Bovary c’est moi” (Emma Bovary sou eu). Assim, num livro intrigante e instigante, vemos uma mulher entediar-se com seu casamento e, por isso, dar um novo rumo à sua vida; rumo que está longe de ser feliz, pois num romance realista, a realidade não é nenhum pouco romântica. Dessa forma, termino o post convidando o leitor a mergulhar no universo interior de Emma e ler o que julgou-se “a glorificação do adultério”.
Citação final: “Aquela ternura, de fato, crescia mais a cada dia com a repulsa que sentia pelo marido. Quanto mais se entregava a um mais execrava o outro; jamais Charles lhe parecera tão desagradável, quando estavam juntos, com dedos tão quadrados, o espírito tão pesado, as maneiras tão comuns quanto após seus encontros com Rodolphe.”
No próximo post: O primo Basílio
Abasteça-se de clássicos com Renata Carreon o/